Como nasce um livro ? I
- Filipa Barbosa
- 19 de jan.
- 2 min de leitura
Quando me perguntam, ou quando eu mesma o faço, a verdadeira razão de publicar os meus livros, há um silêncio que cai, uma introspecção profunda da verdadeira razão, da verdadeira essência, do quando e do porquê que tudo isto começou.
O meu primeiro livro, A minha avó é do mar, nasceu da vontade de imortalizar a minha avó , foi como se ao escrever, fosse possível guardar num potezinho, pedaços da nossa história, memórias que não se apagariam com o tempo, como se fosse possível trazer a sua voz, ou o seu cheiro de volta.
Escrevi, a chorar, fui passando para o papel, o meu amor, a minha dor.
Escolhi uma capa no canva e decidi enviá-lo para uma gráfica, queria imprimir, queria poder tocar-lhe, cheirá-lo, queria partilhá-lo com os meus irmãos, que estavam comigo a passar pela mesma dor, a mesma perda de um grande amor.
Não sabia que começava assim esta enorme e transformadora viagem.
Quando comecei a partilhar com pessoas amigas e depois nas minhas redes sociais, o que tinha escrito , o que tinha feito com a dor lacerante de se perder um familiar que amamos, que queremos sempre por perto, começaram a surgir pedidos, mais pessoas queriam ler aquelas letras, como se quisessem saber mais sobre a minha dor, talvez porque em algum momento a tivessem sentido também.
Pedi mais uns quantos exemplares à gráfica, 50 exemplares para ser mais precisa e eles voaram , não sei se pela dor escrita, ou por saberem que assim nasceria um sonho. Daqueles sonhos que temos na infância e que se vão encurralando, à medida que os anos crescem e vamos perdendo a inocência de acreditar em nós.
Sinceramente, ainda hoje não sei o que moveu as pessoas a comprar algo tão cru e tão intenso.
Ao ser inundada por esta onda de amor, acreditei, refleti, decidi que a minha avó tinha de estar ao alcance de todos, que a D.Odete neste momento, já não era só a minha avó, era a avó de tantos de nós, era o colo de tantos netos e netas.
E assim nasceu a publicação. Decidi, acreditei, enviei para várias editoras e ele nasceu.
Uma capa com ondas, como a onda em que eu mergulhava cada vez que permitia que o meu coração sentisse tudo o que havia para sentir. Um livro foi publicado e as mesmas pessoas que tinham comprado aquele rascunho cru , da minha despedida sentida, voltaram a comprar, uma e outra vez, para elas, para oferecer. Lembro-me de o enviar para vários pontos de Portugal e não só, a minha avó estava a andar de avião , a passear para outros países, coisa que em vida nunca fez. Decididamente , não era só a minha dor, o meu amor, a minha perda ou as minhas palavras.
A D.Odete tornara-se imortal e uma das avós mais lidas e queridas do mundo em que vivo.
Valeu a pena.
Obrigada.
Com amor
Filipa



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